Guia 04 · Fotografia · jurisdição PT
Uso indevido da tua fotografia: o que fazer, passo a passo
A tua foto foi usada sem autorização? Reunir prova, notificar, pedir takedown e indemnização (art. 195.º e 211.º CDADC), com os prazos que tens.
Descobriste a tua foto num site, numa página de redes sociais ou num anúncio, sem ninguém te ter pedido nada. Tens direitos e tens caminhos, mas a ordem por que ages muda o resultado: primeiro guardas prova, depois notificas, depois escalas. Este guia é a sequência prática, com os artigos da lei portuguesa que a sustentam e os erros que te tiram força pelo caminho.
O que conta como uso indevido da tua fotografia
É uso indevido qualquer reprodução, publicação, distribuição ou alteração da tua fotografia feita sem a tua autorização. A foto é uma obra protegida quando, pela escolha do objeto ou pelas condições da sua execução, pode considerar-se uma criação artística pessoal do autor (art. 164.º do CDADC). Sendo obra, o autor tem o direito exclusivo de a reproduzir, difundir e pôr à venda (art. 165.º).
O ponto que muita gente ignora: não precisas de ter registado nada. O direito de autor é reconhecido independentemente de registo, depósito ou qualquer outra formalidade (art. 12.º). Nasce contigo no momento em que crias a imagem. Por isso, copiar sem licença, cortar o teu crédito, ou usar a foto além do que licenciaste (outro meio, outra campanha, depois do prazo) são todos usos indevidos.
E cuidado com um mito: publicar a foto nas tuas redes ou no portfolio não a coloca em domínio público. Continua tua, e reutilizá-la sem autorização continua a ser ilícito.
Como reunir prova sólida antes de reagir
Antes de escrever a quem quer que seja, junta tudo o que prove que a foto é tua e é anterior ao uso que denuncias. A lei ajuda-te aqui: presume-se autor quem for identificado como tal na obra (art. 27.º do CDADC), e os metadados e a tua assinatura reforçam essa presunção.
| Prova | Para que serve |
|---|---|
| Ficheiro original (RAW ou original de câmara) com metadados EXIF | Mostra data de criação, câmara e, por vezes, GPS: liga a foto a ti |
| Publicação datada (post, portfolio, entrega ao cliente) | Prova que a imagem existia antes do uso indevido |
| Registo na IGAC | Prova pública facultativa; podes registar mesmo depois |
| Captura do uso indevido com URL e data | Documenta onde, como e quando a foto foi usada |
O registo na IGAC não é obrigatório e não cria o direito, mas dá-te uma prova pública com data certa. Tem uma taxa e um prazo de decisão próprios (confirma o valor e o prazo atuais no site oficial da IGAC). Para agir depressa, a prova mais forte costuma ser a que já tens: originais, metadados e a primeira publicação. Guarda também as capturas do uso indevido logo, porque conteúdo online desaparece.
Passo a passo: do contacto ao notice-and-takedown
A escalada tem três degraus, do mais leve ao mais formal: contacto direto, notificação por escrito, e remoção junto da plataforma. Sobe um degrau de cada vez e guarda cópia de tudo.
- Contacto direto. Email curto a identificar a foto, a dizer que és o autor e a indicar o que pedes: retirar, creditar, ou licenciar e pagar. Muitos usos indevidos são ignorância, não má-fé, e resolvem-se aqui.
- Notificação formal. Se ignorarem, envia uma notificação por escrito com prova de entrega (carta registada ou email com recibo), a exigir a cessação do uso, a mencionar os teus direitos e a fixar um prazo curto. É o teu registo de que agiste antes de escalar.
- Notice-and-takedown. Se a foto está numa plataforma (redes sociais, YouTube) ou num site alojado por terceiros, usa o formulário de denúncia de direitos de autor ou de conteúdo ilegal do serviço. Desde o Regulamento dos Serviços Digitais (DSA, Regulamento (UE) 2022/2065), executado em Portugal pela Lei n.º 12-A/2026, os serviços de alojamento e as plataformas têm de disponibilizar mecanismos de notificação e ação e de agir sobre conteúdo ilegal depois de notificados. A supervisão cabe à ANACOM, enquanto Coordenador dos Serviços Digitais. O antigo mecanismo de solução provisória em 48 horas do DL n.º 7/2004 foi revogado por essa lei, por isso não contes com ele.
Não apagues nada do teu lado enquanto o caso está aberto. Se o uso for pago ou comercial, considera pedir uma licença retroativa com valor, em vez de só a retirada: às vezes rende mais do que apagar.
VISAPRESS: o que trata (e o que não) na imagem de imprensa
A Visapress é a entidade de gestão coletiva dos direitos sobre conteúdos publicados em jornais e revistas, criada ao abrigo da Lei n.º 83/2001 e registada na IGAC. Licencia o uso desses conteúdos e atua contra o uso abusivo de imagens e textos de imprensa online, incluindo cobrança de licenças a quem usa sem autorização.
Isto interessa-te se a tua fotografia vive no ecossistema de imprensa: foi publicada num jornal ou revista e depois copiada, ou trabalhas como fotógrafo de imprensa. Nesses casos a Visapress pode ser a via que licencia e persegue o uso. Se és autor independente e a foto nunca passou por esse circuito, a Visapress não é o teu órgão de execução: o caminho é direto (tu, um advogado, ou o apoio jurídico da tua estrutura de autores). Confirma sempre com a entidade se o teu caso concreto está no âmbito dela antes de contar com essa via.
Quando chamar advogado: indemnização, crédito e crime
Chama advogado quando o uso é comercial, recorrente, ou quando o contacto e a notificação não resolveram. Há três alavancas a conhecer.
- Crime. Usar a obra sem autorização do autor é usurpação (art. 195.º do CDADC), punível com prisão até três anos e multa (art. 197.º). É uma via forte, mas com regras próprias de denúncia e de prazos: confirma-as com advogado antes de contar com ela.
- Indemnização. O art. 211.º do CDADC manda fixar o valor pesando o lucro que o infrator tirou, os teus lucros cessantes e danos, e as despesas que tiveste a defender o direito, incluindo danos não patrimoniais e, no limite, recurso à equidade. Não há tabela fixa: quanto mais a foto trabalhou para quem a usou, maior o valor defensável.
- Crédito. O direito de reivindicar a paternidade da obra é teu para toda a vida, inalienável, irrenunciável e imprescritível (art. 56.º). Podes exigir que te creditem mesmo que aceites licenciar o uso.
Prazos e prescrição: quanto tempo tens
No lado civil, tens três anos para pedir indemnização, a contar do momento em que ficaste a saber do uso e do direito que tens, mesmo que ainda não saibas quem foi o responsável nem a extensão total dos danos (art. 498.º do Código Civil). O relógio começa com o teu conhecimento, não com a data do uso, mas não te encostes a isso: quanto mais cedo agires, mais prova online ainda existe.
O direito ao crédito não prescreve, porque o direito moral de paternidade é imprescritível (art. 56.º). Já a via criminal (usurpação e contrafação) tem prazos próprios de queixa e de prescrição do procedimento, com nuances que dependem do caso, por isso confirma-os com advogado antes de os assumir. Regra prática: trata os prazos como mais curtos do que parecem e não deixes o caso arrastar.
Checklist de reação e prevenção
Guarda esta sequência para agir rápido e para não repetir o problema.
Reação:
- Captura o uso indevido com URL, data e, se possível, um carimbo temporal.
- Reúne os ficheiros originais, os metadados e a publicação datada.
- Contacta por escrito a pedir retirada, crédito ou pagamento.
- Notifica formalmente com prazo se ignorarem.
- Submete o pedido de takedown na plataforma ou junto do alojamento.
- Escala para advogado se o uso for comercial ou reincidente.
Prevenção:
- Assina as imagens: marca de água discreta ou crédito visível.
- Mantém os RAW e não apagues os metadados dos ficheiros que publicas.
- Regista na IGAC as obras que mais te importam, como prova pública com data.
- Licencia sempre por escrito, com uso, meio, território e prazo definidos (ver o guia de licenças de fotografia).
- Deixa termos claros no portfolio: uso só com autorização prévia.
Para construir a base de prova antes de precisares dela, o guia de registo e prova de autoria mostra como datar e arquivar o teu trabalho. E se além da tua foto houver pessoas reconhecíveis na imagem, confirma também os direitos de imagem das pessoas.
Fontes e verificação
- CDADC consolidado (Decreto-Lei n.º 63/85), Diário da República: art. 12.º, 27.º, 56.º, 164.º, 165.º, 195.º, 197.º e 211.º.
- CDADC articulado, Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa.
- Código Civil consolidado (art. 498.º, prescrição), Diário da República.
- IGAC, Registo de obras literárias e artísticas e direitos conexos.
- Visapress, Quem somos.
- Regulamento (UE) 2022/2065 (DSA), EUR-Lex, Lei n.º 12-A/2026 (execução do DSA, altera o DL n.º 7/2004), Diário da República e ANACOM, Regulamento dos Serviços Digitais.
Verificado a 2026-07-15. Encontraste um erro? Diz-nos em guiadoartista.pt/sobre.
Perguntas rápidas
Publiquei a foto no Instagram sem marca de água. Perdi os direitos?
Não. O direito de autor é reconhecido independentemente de registo, depósito ou marca de água (art. 12.º do CDADC). Publicar a foto nas tuas redes não a coloca em domínio público nem autoriza terceiros a reutilizá-la. Continuas dono e qualquer cópia sem a tua licença é uso indevido.
Quem usou a minha foto pôs o meu nome por baixo. Isso já resolve?
Não. Dar-te crédito não substitui a autorização de uso. O crédito satisfaz o teu direito moral de paternidade (art. 56.º do CDADC), mas o direito de reproduzir e publicar a obra é separado e continua a precisar de licença tua. Podes exigir as duas coisas: crédito e pagamento pelo uso.
Vale a pena registar na IGAC depois de a foto já ter sido copiada?
O registo é sempre facultativo e serve de prova pública, não cria o direito. Podes registar mesmo depois, mas para o caso concreto o que conta mais é a prova anterior: ficheiros originais com metadados, a publicação datada onde a foto apareceu primeiro e a captura do uso indevido. Junta isso antes de gastar tempo com o registo.
Um site estrangeiro copiou a minha foto. Consigo fazer alguma coisa?
Consegues, mas é mais lento. O caminho prático é o formulário de denúncia de direitos de autor da plataforma ou do serviço de alojamento, que costuma responder a pedidos de retirada. A execução judicial fora de Portugal é complexa, por isso para usos comerciais relevantes fala com um advogado antes de investir tempo.
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