Guia 10 · Música · jurisdição PT
Sync: licenciar música para vídeo, publicidade, cinema e jogos
Uma sincronização exige duas autorizações, obra e master. Quem as dá em Portugal, como se negoceia o fee único e o que preparar para music supervisors.
Uma música num anúncio, num filme ou num jogo pode pagar mais do que um ano de streaming. Mas o sync tem uma mecânica própria: duas autorizações, um fee único negociado à cabeça e um circuito de pessoas (music supervisors, editoras, bibliotecas) que decide em dias. Este guia explica como funciona o mercado e o que a lei portuguesa exige em cada passo.
O que é uma licença de sincronização?
Uma licença de sincronização é a autorização para fixar uma música numa obra audiovisual: um filme, uma série, um anúncio, um videojogo, um vídeo de marca. O nome vem exatamente daí, sincronizar som com imagem.
Em Portugal, esta utilização cai nos direitos exclusivos do autor: a fixação, a reprodução e a difusão da obra fazem parte das formas de exploração que dependem de autorização do titular (art. 68.º, n.º 2 do CDADC). E não há atalhos de duração: as utilizações livres do art. 75.º do CDADC cobrem situações específicas (citação, ensino, informação), e usar música como banda sonora de um vídeo comercial não é nenhuma delas. A "regra dos 10 segundos" não existe.
Porque precisas de duas autorizações, obra e master?
Porque cada música tem dois direitos separados, com titulares diferentes. A composição (letra e música) é a obra, protegida pelo direito de autor; a gravação concreta é o fonograma, o master, protegido por direitos conexos.
Pôr uma gravação num vídeo usa os dois ao mesmo tempo:
| Lado | O que estás a usar | Quem autoriza | Base legal |
|---|---|---|---|
| Obra (sync licence) | A letra e a música | Autores ou a editora (publisher) que os representa | Art. 68.º, n.º 2 do CDADC |
| Master (master use licence) | A gravação específica | O produtor do fonograma: a label ou o artista independente que financiou a gravação | Art. 184.º, n.º 1 do CDADC |
Do lado do master, incorporar a gravação num vídeo implica reproduzi-la, e a reprodução "direta ou indireta, temporária ou permanente" de um fonograma carece de autorização do produtor (art. 184.º, n.º 1).
Se falhar uma das duas, não há sync. É por isso que as produções adoram artistas one-stop, que controlam obra e master e fecham tudo numa única conversa. E é por isso que regravar a música (uma cover autorizada) é um truque clássico de publicidade: a produção só precisa de licenciar a obra, porque cria um master novo. Atenção: se gravares essa versão nova com músicos de sessão, a fixação das prestações deles também depende de autorização (art. 178.º do CDADC); resolve isso no contrato da sessão.
Quem dá cada autorização em Portugal?
Do lado da obra, o pedido pode entrar pela SPA, mas quem decide são os titulares. Segundo a própria SPA, sempre que se sincroniza música com imagem (publicidade, personagens, genéricos) é preciso autorização dos autores: o pedido "é diligenciado junto dos detentores dos direitos da obra e as condições da autorização são estabelecidas pelos mesmos". A abertura do processo não tem custos e os valores de sincronização são, por norma, fixados pelos próprios autores. Na prática, trata da autorização antes da produção do audiovisual: sem ela, não podes fixar a obra no vídeo. Se a obra tiver editora (publisher), é normalmente ela que negoceia este lado.
Do lado do master, negoceias diretamente com o titular da gravação: a label, ou tu próprio se és independente e pagaste a gravação. Não confundas com a licença de execução pública de fonogramas (PassMúsica): as regras de licenciamento da Audiogest dizem expressamente que essa licença não compreende atos de reprodução ou colocação à disposição do público, ou seja, não cobre sincronização.
Regra de ouro em qualquer dos lados: tudo por escrito. A autorização de utilização de uma obra "só pode ser concedida por escrito" e deve indicar a forma de utilização autorizada e as condições de tempo, lugar e preço (art. 41.º do CDADC).
Como se negoceia um sync e quanto se paga?
Negoceia-se um fee único, pago à cabeça, por uma utilização definida ao milímetro. O contrato fixa o meio (TV, cinema, online, jogo), o território, o prazo, a duração do excerto, o contexto da cena e a exclusividade. Cada variável mexe no preço: um anúncio mundial em todos os media custa muito mais do que um vídeo online num só país durante um ano.
Duas mecânicas de mercado que deves conhecer:
- MFN (most favoured nations): cláusula que obriga a que o fee da obra e o fee do master sejam iguais. Se o outro lado negociar mais, tu recebes o mesmo. Está descrita em guias de mercado como o da Berklee. Pede sempre.
- Fee único agora, execução pública depois: o sync fee paga a incorporação. Quando o filme ou anúncio passa na TV ou em streaming, gera direitos de execução pública da obra, cobrados pela SPA e congéneres. Garante que a produção preenche a cue sheet (a folha que lista as músicas usadas), porque é ela que faz esse dinheiro chegar-te.
Como referência de grandeza, os valores praticados no mercado norte-americano (obra e master combinados) segundo o rate card da Chartlex para 2026:
| Tipo de utilização | Intervalo (USD) |
|---|---|
| Anúncio nacional de TV | 50 000 a 800 000+ |
| Filme de estúdio | 20 000 a 500 000+ |
| Episódio de série de streaming | 10 000 a 75 000+ |
| Episódio de TV | 3 000 a 45 000 |
| Filme independente | 1 000 a 15 000 |
| Videojogo independente | 500 a 15 000 |
| Vídeo de criador de YouTube | 0 a 1 500 |
Usa a tabela para perceber a proporção entre media, não como tabela portuguesa: os orçamentos em Portugal negoceiam-se caso a caso e cada projeto é um mundo.
Quem são os music supervisors e para que servem as bibliotecas de produção?
O music supervisor é quem escolhe e licencia a música de um projeto audiovisual: é contratado pela produção, recebe um brief (emoção, tempo, género, orçamento da cena) e procura opções que consiga limpar depressa. É a relação mais valiosa do sync, e valoriza duas coisas acima de tudo: música certa para o brief e clearance sem dores de cabeça.
As bibliotecas de música de produção (production music libraries) são o outro caminho: catálogos pré-licenciados onde as produções vão buscar música sem negociação individual. Funcionam bem para volume (TV, vídeos corporativos, publicidade regional) e pagam menos por utilização do que um sync negociado à mão. Antes de assinares com uma, lê três cláusulas: exclusividade (podes pôr as mesmas faixas noutras bibliotecas?), prazo e a percentagem que fica com a biblioteca. Uma exclusiva perpétua sobre o teu melhor instrumental é uma decisão séria, não um formulário.
O que deves ter pronto antes de fazer pitch?
Um pacote de sync pronto a enviar, porque a velocidade de resposta decide negócios. A checklist:
- Splits limpos e assinados: um split sheet por música, com todos os co-autores e percentagens acordadas. Um co-autor incontactável mata o clearance.
- Versão instrumental de cada faixa, obrigatória para publicidade e diálogo por cima.
- Versão clean se a letra tiver palavrões.
- Stems (vozes, bateria, baixo, melodias em pistas separadas), cada vez mais pedidos para editar à cena.
- Metadados completos nos ficheiros: título, autores e splits, titular do master, ISRC e ISWC, BPM, tonalidade, mood, e um email e telefone que respondam.
- Samples e interpolações clearados por escrito, ou a garantia de que não existem.
- Estatuto one-stop declarado se controlas obra e master: é um argumento de venda, di-lo no email.
Se a obra está declarada na SPA e tens editora, alinha com ela quem responde a pedidos. O pior cenário é o supervisor não saber a quem perguntar.
Que erros custam syncs a artistas portugueses?
O erro mais caro é assumir que alguém trata do sync por ti. Nem a SPA nem o distribuidor fecham estas licenças automaticamente: a SPA diligencia pedidos da obra junto dos titulares, e o distribuidor trata de lojas e streaming, não de negociação de sync.
Os restantes, por ordem de frequência:
- Splits por resolver: percentagens nunca formalizadas, ou um produtor de beat com quem não há contrato. O supervisor não espera que resolvas.
- Samples não clearados: um sample ilegal contamina obra e master e transfere o risco para a produção, que desiste.
- Não ter instrumental nem stems: perde-se o negócio no dia em que o pedem para amanhã.
- Responder tarde: clearances profissionais fecham em dias; uma semana sem resposta é um não.
- Assinar exclusividades de biblioteca sem ler prazo e território, e descobrir que já não podes licenciar a faixa diretamente.
- Confundir licença com cessão: um sync é uma licença para uma utilização definida. Se o papel transmite direitos sobre a obra, é outra conversa: a transmissão parcial de direitos de autor exige documento escrito com reconhecimento notarial das assinaturas, sob pena de nulidade (art. 43.º do CDADC).
- Esquecer a execução pública: sem cue sheet entregue, os direitos de exibição em TV e streaming não chegam à tua conta na SPA.
Fontes e verificação
- CDADC consolidado, Diário da República: artigos 41.º, 43.º, 68.º, 75.º, 178.º e 184.º
- SPA, FAQ Usuários: autorização de sincronização e processo junto dos titulares
- SPA, FAQ Reprodução Mecânica: direitos de sincronização fixados pelos autores
- Audiogest, Regras e Condições Gerais de Licenciamento: a licença de execução pública não cobre reprodução
- Berklee, Music Licensing 101: mecânica de mercado, supervisores e MFN
- Chartlex, Sync Licensing Rate Card 2026: intervalos de fees no mercado norte-americano
Verificado a 2026-07-12. Encontraste um erro? Diz-nos em guiadoartista.pt/sobre.
Perguntas rápidas
Posso usar 10 segundos de uma música num vídeo sem autorização?
Não. Em Portugal não existe nenhuma regra dos X segundos: as utilizações livres do art. 75.º do CDADC cobrem situações específicas como citação, ensino ou informação, e pôr música num anúncio, filme ou vídeo comercial não é nenhuma delas. Qualquer duração exige as duas autorizações, da obra e do master.
Se gravar uma cover preciso de licença de sincronização para a pôr num vídeo?
Precisas da autorização da obra, porque a letra e a música continuam a pertencer aos autores originais. O master novo é teu (ou de quem financiou a gravação), por isso esse lado não precisas de pedir a ninguém. É uma via comum em publicidade: regravar a música sai mais barato do que licenciar a gravação famosa.
O meu distribuidor digital trata das sincronizações por mim?
Por defeito, não. A distribuição digital cobre lojas e plataformas de streaming; o sync negoceia-se diretamente com os titulares da obra e do master. Alguns distribuidores têm serviços opcionais de representação para sync, mas lê as condições: percentagem cobrada, exclusividade e prazo.
A SPA fixa o preço de uma sincronização?
Não. A SPA diligencia o pedido junto dos titulares da obra e são eles que estabelecem as condições e os valores, caso a caso. A abertura do processo não tem custos, mas a autorização em si é negociada livremente entre as partes.
Quanto tempo demora um clearance de sync?
Em produções profissionais, dias a poucas semanas, e os music supervisors trabalham com prazos apertados. Se um dos lados demora a responder ou tem splits por resolver, a produção passa à música seguinte da lista. Ter obra e master controlados e contactos claros nos metadados é o que acelera tudo.
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